Organizador: Instituto Fé e Liberdade (Guatemala)
Colaborador: Escuela Hispánica
Datas: 12-15 de outubro de 2025
Local: La Antigua, Guatemala
De 12 a 15 de outubro, realizou-se em La Antigua Guatemala o colóquio «Eco de Salamanca», organizado pelo Instituto Fé e Liberdade, um encontro académico internacional dedicado a refletir sobre a atualidade histórica e intelectual da Escola de Salamanca e a sua contribuição para o pensamento ocidental contemporâneo. O evento reuniu investigadores de diversas áreas — filosofia, direito, economia, teologia e história — num diálogo marcado pelo rigor académico e pela pluralidade de abordagens.
Entre os participantes estiveram figuras ligadas à Escuela Hispánica, como o seu presidente honorário, Alejandro Chafuen, e dois dos seus vice-presidentes académicos: Carroll Ríos, presidente do Instituto Fé e Liberdade e principal promotora da conferência, e León Gómez Rivas. A presença destes oradores contribuiu para articular o colóquio num esforço intelectual mais amplo de recuperação da tradição hispânica no debate contemporâneo.
As sessões centraram-se no legado dos escolásticos dos séculos XVI e XVII, cujo ponto de partida se situa na cátedra de Francisco de Vitoria em Salamanca (1526), inserida na tradição tomista inspirada em São Tomás de Aquino. Os oradores destacaram como estes autores integraram fé e razão ao recuperarem a filosofia aristotélica, permitindo a utilização sistemática da lógica na reflexão moral e jurídica cristã. Longe de serem meramente especulativos, os escolásticos responderam a problemas concretos do seu tempo: a humanidade e os direitos dos indígenas após a descoberta da América, a legitimidade do poder político, a propriedade privada, a justiça dos preços, a inflação causada pela chegada massiva de prata americana ou os limites fiscais do Estado.
Foi dada especial atenção à figura de Vitoria como precursor do direito internacional e da noção moderna de direitos humanos, assim como a Juan de Mariana — defensor da origem popular do poder político e crítico da manipulação monetária — e a Diego de Covarrubias, cuja teoria do valor subjetivo antecipou em séculos os desenvolvimentos posteriores da economia. Recordou-se também o contexto histórico: desde as preocupações de Isabel a Católica com o tratamento dos indígenas até aos debates de Valladolid, mostrando como a tradição salmantina nasceu da tentativa de responder moralmente a uma realidade inédita.
Para além do conteúdo histórico, o colóquio enfatizou três características intelectuais da escola: a sua atitude aberta aos problemas concretos do tempo, a sua capacidade de síntese — o “et… et…” católico face ao exclusivismo ideológico — e a sua defesa da dignidade humana como limite permanente do poder. Nesse sentido, insistiu-se que a tradição salmantina não constitui uma relíquia erudita, mas sim um quadro útil para pensar questões atuais: da legitimidade política e justiça económica à relação entre liberdade, cultura e responsabilidade moral.
O encontro esteve também ligado ao projeto editorial do Instituto Fé e Liberdade sobre o Ocidente em Crise (volume 8), no qual participa como editor convidado, integrando assim o colóquio num programa de investigação mais amplo orientado para a recuperação do humanismo hispânico sem cair nem na legenda negra nem na idealização.
O encerramento deixou uma conclusão partilhada: a Escola de Salamanca não foi apenas um episódio histórico, mas um método intelectual — realista, moral e aberto — que pode continuar a iluminar os debates do século XXI.
O Eco de Salamanca voltará a realizar-se este ano em La Antigua Guatemala, consolidando-se como um fórum periódico de reflexão sobre a tradição intelectual hispânica e a sua projeção contemporânea.
