Organizador: Intercollegiate Studies Institute (ISI)
Colaborador: Escuela Hispánica
Datas: 10-12 de outubro de 2025
Local: Wilmington (Delaware, Estados Unidos)
De 7 a 9 de novembro de 2024, realizou-se em Wilmington (Delaware, Estados Unidos) a American Politics and Government Summit (APGS), organizada pelo Intercollegiate Studies Institute com a colaboração da Escuela Hispânica. O encontro reuniu académicos, estudantes e líderes intelectuais interessados na tradição política ocidental e nos debates contemporâneos sobre o conservadorismo.
Neste quadro, o secretário-geral da Escuela Hispânica proferiu uma palestra dedicada à tradição hispânica da liberdade e ao seu papel como complemento necessário da tradição anglo-saxónica para sustentar o projeto histórico do Ocidente. A intervenção sublinhou que a história intelectual ocidental não pode ser compreendida apenas a partir da genealogia habitual — Jerusalém, Atenas, Roma, Londres e Filadelfia —, pois existe uma "cidade perdida" nesse relato: Salamanca.
Intervenção durante a American Politics and Government Summit em Delaware.
A partir daí, foi reconstruindo um fio que liga Santo Tomás, os franciscanos precursores e os escolásticos hispânicos ao nascimento da economia moderna. A sua ênfase no valor subjetivo, na relação entre preço justo e mercado livre — "sem monopólio, sem fraude, sem coação" — antecipa noções centrais que mais tarde seriam formalizadas pelos economistas austríacos. Chafuen sublinhou também o papel de Juan de Mariana, que uniu a reflexão moral à crítica institucional: a manipulação da moeda, advertia o jesuíta, não era apenas um erro técnico, mas um ato de injustiça social. Na sua obra De Rege et Regis Institutione, Mariana propunha uma monarquia republicana fundada na virtude e no respeito pela ordem natural, consciente de que o poder político, sem moral, degrada-se inevitavelmente em tirania.
A Genealogia das Raízes do Ocidente
Em seguida, Juan Ángel Soto situó esse legado na arquitetura mais ampla da civilização ocidental. Propôs incluir a Cidade de Salamanca na genealogia das raízes do Ocidente, a par de Jerusalém, Atenas, Roma, Londres e Filadelfia. Não como uma reivindicação nacionalista, mas como uma retificação histórica. A tradição hispânica, explicou, atuou como ponte entre a Cristandade medieval e o Iluminismo, preservando a noção de lei natural e aperfeiçoando-a com uma reflexão sobre a liberdade que não a concebe como mera ausência de coação, mas como um exercício moral orientado para o bem.
"A liberdade 'de' é insuficiente sem a liberdade 'para'", assinalou. "A liberdade, sem uma ideia do bem que a ordene, dissolve-se em arbitrariedade."
Representantes da Escuela Hispânica na cimeira «American Politics & Government Summit (ISI) 2025»
Soto alertou ainda para um equívoco contemporâneo: o uso político da Hispanidade como instrumento de contraposição geopolítica face aos Estados Unidos. Perante estas leituras de antagonismo, propôs compreender a tradição hispânica como uma contribuição constitutiva do projeto ocidental, não como a sua negação. "O Ocidente de hoje", afirmou, "não pode sustentar-se apenas sobre uma coluna — a anglo-saxónica; precisa de se apoiar nas outras, especialmente na hispânica, que introduz uma antropologia mais completa e uma conceção mais moral da ordem política".
O Personalismo Perante a Crise Moderna
Enrique Pallarés levou a discussão para o terreno filosófico e existencial, introduzindo Miguel de Unamuno como herdeiro da tradição escolástica e profeta da crise moderna. Unamuno — recordou — advertiu antes de qualquer outro o risco da despersonalização: a substituição do indivíduo concreto pelo ser abstrato, do homem de carne e osso pela "humanidad" sem rosto. Perante o domínio da razão instrumental e da política de massas, o pensador bilbaíno propôs recuperar a centralidade da pessoa. Para ele, ser pessoa não significava isolar-se, mas viver em tensão entre o visível e o eterno, entre a história e a alma.
"Não há outra política", escreveu Unamuno, "que salvar a pessoa na história".
Pallarés sublinhou a profundidade teológica dessa afirmação: a política deixa de ser então uma engenharia do poder e converte-se numa tarefa moral, orientada para a salvação do homem concreto. Nessa visão personalista — herdeira da antropologia cristã e, em última análise, da Escolástica — encontra-se, disse, a chave para responder à crise contemporânea da civilização liberal. Se o século XX foi o século das ideologias e o XXI corre o risco de ser o da indiferença, a resposta passa por repor no centro a dignidade da pessoa, face às abstrações do mercado, do Estado ou da massa.
Rumo a uma Reconstrução Política
A conversa entre os três oradores foi revelando uma ideia comum: que a liberdade sem forma nem finalidade conduz ao caos, e a ordem sem liberdade, à opressão. A tradição hispânica, de Francisco de Vitoria a Unamuno, teria procurado um equilíbrio entre ambas: uma ordem fundada na lei natural, que reconhece limites à autoridade e, ao mesmo tempo, orienta a liberdade para o bem. Essa "liberdade ordenada" é, segundo Soto, a chave de qualquer reconstrução política possível perante as tentações tanto do tecnocratismo como do populismo.
Durante o diálogo com o público, os participantes abordaram questões como a tensão entre lei natural e vontade soberana, a influência real dos escolásticos sobre Locke e Smith, e a herança do Concilio de Trento no desenvolvimento do pensamento político moderno. Soto insistiu que o objetivo não é decidir quem "tenha razão" — se a Reforma ou a Contrarreforma —, mas redescobrir os pontos de convergência que alicerçaram o mundo ocidental: a primacia da lei sobre o poder, a dignidade da pessoa e o papel central da virtude na vida pública.
Chafuen acrescentou uma observação significativa: as culturas protestante e católica, disse, cultivaram dimensões complementares da civilização moderna — o respeito pela lei, num caso; a profundidade moral e filosófica, no outro — e o futuro do Ocidente dependerá da sua reconciliação. Em paralelo a esta mesa, outro membro da Escuela Hispânica, Felipe Mosquera, participou noutro painel onde destacou a influência de Jovellanos nesta tradição.
Intervenção de Felipe Mosquera no seu painel dentro da American Politics & Government Summit (ISI)
Conclusão: Uma Tarefa Essencial
Mais do que uma lição histórica, a sessão do ISI foi um exercício de releitura civilizacional. Os oradores da Escuela Hispânica propuseram um relato onde as universidades ibéricas e americanas do Século de Ouro se tornam um elo perdido entre a Cristandade e a modernidade liberal; onde a liberdade, longe de se opor à moral, se funda nela; e onde a pessoa — não a massa, nem o Estado, nem o mercado — recupera o seu lugar como medida de todo o ordenamento político. Como resumiu Soto na sua intervenção final:
"Não se trata de superar a modernidade, mas de recordar que, antes dela, já existia uma tradição de liberdade mais profunda, mais humana e mais moral. E que recuperá-la talvez seja a tarefa essencial do nosso tempo."





